Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário

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Aviso

Esta coluna dedica-se à análise de grandes letras da história da pop, desrespeitando deliberadamente quaisquer direitos (ou intenções) do autor.

 Don’t believe the hype

Public Enemy, 1988

 

Desligo a televisão e dirijo-me ritualmente ao quintal da minha sub-cave à Lapa com os jornais de fim-de-semana que queimo sem ler, numa pequena contribuição para a emissão de gases de estufa e, simultaneamente, para a salvação do planeta através da reciclagem. 

Sinto-me mais um cidadão do mundo agora, e não apenas mais um semi-clandestino que, graças ao seu passado subversivo e a um tipo de educação intrusiva, se estabeleceu como um príncipe do anonimato, como um pequeno poder, geograficamente limitado à fronteira entre a porta da rua e a mercearia do paquistanês que entretanto abriu ao dobrar da esquina.

Faço-o no dia de Nossa Senhora de Fátima, naquele que considero ser à nossa escala o primeiro exemplo do que classifico de uma manobra W.H.O.R.E.: World Hype Organization of Related Events.

Para quem leu Irving Wallace e o seu
“Almighty”, o primeiro documento público que denuncia a WHORE, nada disto virá como uma novidade. Para os outros fica aqui a explicação.

A teoria é simples. Um dia, há muito, muito tempo, os donos do mundo juntaram-se num hotel do interior com vista para um lago artificial e um campo de golfe de dezoito buracos e decidiram que precisavam de arranjar maneira de, de tempos a tempos, desviar a atenção do que é realmente importante. Vai daí criaram a WHORE.

Estávamos no fim das crises do petróleo, no início do reino de Thatcher, no prenúncio da era Reagan, e no limiar da era digital.

O caldo de cultura ideal para se dar consistência a uma organização que, de uma vez por todas, conseguisse criar um programa coerente para ir dizendo ao mundo o que pensar e com o que se preocupar.

Os anos 80 foram ricos em ensaios e as primeiras experiências da WHORE são de todos conhecidas: a campanha “Just Say No” de Reagan, o início das campanhas antitabágicas, e todas as bandas da tripla Stock, Aitken e Waterman são apenas alguns exemplos.

Depois de anos na obscuridade de campos de férias criados em reservas ecológicas inacessíveis, a WHORE começou a ser investigada por vários sectores, que foram sendo sucessivamente silenciados.

Conseguiram silenciar todos, ou quase todos. Não contaram com um conjunto de rapazes do Bronx sem nada a perder que se vieram a tornar talvez na mais importante banda de hip hop da história da música.

Recentes vítimas da sua própria profecia e afastados hoje dos meios mais influentes da música, contando apenas com o seu interminável exército de indivíduos à escala global, os Public Enemy foram os primeiros a ter coragem de vir denunciar directamente a WHORE com o seu mítico tema “Don’t Believe the Hype”, em que põem o dedo mergulhado em álcool na ferida aberta da manipulação de massas.

Vem isto a propósito, claro está das
Gripes, do Freeport, das armas de destruição maciça, da eleição de Obama (eu ainda não acredito enquanto não vir o homem à minha frente e tocar-lhe), tudo exímias criações da WHORE que com o advento da internet se tornou talvez a mais poderosa organização mundial. E se escrevo relaxadamente estas linhas é porque, como expliquei no início deste texto, a mim já ninguém me liga.

Entres estes poderão estar vocês – “lá está o cabrão do paranóico a ver conspirações em todo o lado.” Até vos concedo essa dúvida, mas atravessem comigo a análise que se segue.

E não, não são acerca de todas as outras epidemias mundiais sem media-appeal, como a “meningite africana”, os 100 milhões de infectados anuais com o dengue, ou os 250 milhões com malária. Isso é, como diria alguém, pura demagogia – “há sempre alguém pior”.

Mas o facto é que os Public Enemy na sua letra, não só denunciam o esquema mas revelam o seu modus operandis

“Don’t believe the Hype” é, mais do que uma profecia, um manual explícito. Ainda assim dou uma ajuda a identificar as partes mais importantes:

 

Back – Caught you lookin’ for the same thing

It’s a new thing – check out this I bring

Uh Oh the roll below the level

‘Cause I’m livin’ low next to the bass, C’mon

Turn up the radio

They claim that I’m a criminal

By now I wonder how

Some people never know

The enemy could be their friend, guardian

I’m not a hooligan

I rock the party and

Clear all the madness, I’m not a racist

Preach to teach to all

‘Cause some they never had this

Number one, not born to run

About the gun…

I wasn’t licensed to have one

The minute they see me, fear me

I’m the epitome – a public enemy

Used, abused, without clues

I refused to blow a fuse

They even had it on the news

 

Esta primeira estrofe define o momento W.W.W. – World Wide Wackiness que é sempre o primeiro momento do método da WHORE e que se caracteriza pelo lançamento do pânico à escala mundial. Parte do princípio de que estamos sempre à espera da próxima desgraça – “Back / Caught you lookin’ for the same thing / It’s a new thing – check out this I bring” e desenvolve esse pânico com o conceito do medo – pode estar ao teu lado, pode ser o teu amigo, o polícia da tua rua ou mesmo o homem que te ensaca as batatas. 

 

Don’t believe the hype

Yes  – Was the start of my last jam

So here it is again, another def jam

But since I gave you all a little something

That we knew you lacked

They still consider me a new jack

All the critics you can hang’em

I’ll hold the rope

But they hope to the pope

And pray it ain’t dope

The follower of Farrakhan

Don’t tell me that you understand

Until you hear the man

The book of the new school rap game

Writers treat me like Coltrane, insane

Yes to them, but to me I’m a different kind

We’re brothers of the same mind, unblind

Caught in the middle and

Not surrenderin’

I don’t rhyme for the sake of of riddlin’

Some claim that I’m a smuggler

Some say I never heard of ‘ya

A rap burgler, false media

We don’t need it do we?

It’s fake that’s what it be to ‘ya, dig me?

Yo, Terminator X, step up on the stand and show the people what time it is boyyyyyyy!

 

Nesta estrofe, Chuck D e os seus amigos identificam claramente os companheiros da sua revolta e da sua luta – “We’re brothers of the same mind, unblind / Caught in the middle and / Not surrenderin’” – e explicam o segundo passo da estratégia – 

“But they hope to the pope / And pray it ain’t dope” – dada a inexistência de antídotos para mais uma terrível epidemia só mesmo a Igreja para nos salvar, adensando o drama e iniciando o N.E.M.M. – nothing else matters mode.

 

Don’t believe the hype

Don’t believe the hype – it’s a sequel

As an equal, can I get this through to you

My 98’s boomin’ with a trunk of funk

All the jealous punks can’t stop the dunk

Comin’ from the school of hard knocks

Some perpetrate, they drink Clorox

Attack the Black, cause I know they lack exact

The cold facts, and still they try to Xerox

The leader of the new school, uncool

Never played the fool, just made the rules

Remember there’s a need to get alarmed

Again I said I was a timebomb

In the daytime the radio’s scared of me

‘Cause I’m mad, plus I’m the enemy

They can’t c’mon and play with me in primetime

‘Cause I know the time, plus I’m
gettin’ mine

I get on the mix late in the night

They know I’m livin’ right, so here go the mike, sike

Before I let it go, don’t rush my show

You try to reach and grab and get elbowed

Word to Herb, yo if you can’t swing this

Learn the words, you might sing this

Just a little bit of the taste of the bass
for you

As you get up and dance at the LQ

When some deny it, defy if I swing bolos

Then they clear the lane, I go solo

The meaning of all of that

Some media is the whack

You believe it’s true, it blows me through the roof

Suckers, liars get me a shovel

Some writers I know are damn devils

For them I say don’t believe the hype

Yo Chuck, they must be on a pipe, right?

Their pens and pads I’ll snatch

‘Cause I’ve had it

I’m not an addict, fiendin’ for static

I’ll see their tape recorder and grab it

No, you can’t have it back, silly rabbit

I’m going’ to my media assassin

Harry Allen, I gotta ask him

Yo Harry, you’re a writer, are we that type?

Don’t believe the hype

Don’t believe the hype

 

A terceira estrofe foca-se no derradeiro momento – “Don’t believe the hype – it’s a sequel (…) Remember there’s a need to get alarmed”.

O reviver o momento de pânico, aumentando-o ou introduzindo um novo factor (como o caso do novo vírus ser um erro humano), o chamado P.R.I.C. – Panic Revival Induced Conclusion – “The meaning of all of that (…) Yo Chuck, they must be on a pipe,
right?”

Terminam mostrando as armas que possuem para esta batalha:

 

I’m going’ to my media assassin

Harry Allen, I gotta ask him

Yo Harry, you’re a writer, are we that type?

Don’t believe the hype

I got Flava and all those things you know

Yeah boy, part two bum rush and show

Yo Griff, get the green black red and

Gold down, countdown to Armageddon

‘88 you wait the S1Ws will

Put the left in effect and I still will

Rock the hard jams – treat it like a seminar

Teach the bourgeois, and rock the boulevard

Some say I’m negative

But they’re not positive

But what I got to give…

The media says this

Red black and green

Know what I mean

Yo, don’t believe the hype

The media says this

 

O último momento do método WHORE – D.I.S.S. – Disgrace, Insult, Sacrifice and Submission – é claramente identificado: “Some say I’m negative / But they’re not positive (…) Know what I mean” – não sem antes deixar claro o futuro caminho da luta contra a WHORE – o único antídoto conhecido para a estupidez e a ignorância – 

“Rock the hard jams – treat it like a seminar / Teach the bourgeois, and rock the boulevard”.

 

Atchimmm.

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