The Connecter & O Monstro

Perfil de um bom diabo, de um humanista, de um instigador de festas e de um romântico. Estas são algumas das histórias reais protagonizadas por este homem viajante e animador de pessoas – sim, é preciso sublinhar que são histórias reais, porque Holden Sawyer podia ser uma personagem de ficção.
Mas existe. 

Todos nós conhecemos, ou pelo menos deveríamos conhecer, alguém assim: Holden Sawyer tinha pouco menos de trinta anos quando, numa noite de semana, na cidade de Madrid, saiu da sala do Hotel Palace onde participava num jantar institucional e, mesmo antes de abandonar o luxuoso edifício e regressar a casa, passou pela porta de um salão de festas. O seu instinto pôs-se em alerta – reconheceu essa ansiedade das conversas sobrepostas, a agitação de copos, a música a inquietar um pé, depois as ancas, mais tarde o corpo inteiro em cima de uma mesa. Holden entrou sozinho, sem conhecer ninguém. Passou-se pouco tempo e Holden dançava no centro da pista, apresentava-se e era apresentado, acabara de se tornar no gerador de alegria da festa organizada para os deputados e jornalistas do Congresso espanhol. Nessa noite de 2007, ainda que tivesse casa própria em Madrid, Holden dormiu no apartamento de uma repórter especializada em política parlamentar.

Holden Swayer – nome que, por motivos de discrição, lhe atribui para este perfil – nasceu em Portugal, estudou em Lisboa e em Estocolmo, trabalhou em São Paulo e em Madrid. Muitos dos leitores talvez o conheçam e tenham estado com ele na mesma mesa de jantar, na mesma fila para conseguir um gin tónico. Os seus amigos consideram-no um condutor rápido, seguro, inalcançável nas corridas de karts. Na estrada, diz-se, Holden tem os potenciais atributos de um piloto de Fórmula 1, descritos por um psicólogo inglês como “a capacidade para jogar xadrez ao mesmo tempo que se foge de um tigre”. Entre outras alcunhas, Holden foi chamado de Tetris pela forma como, sentado num bar ou restaurante, organiza geometricamente todos os objectos em cima da mesa – tabaco, telemóveis, cinzeiros, carteiras. Descobri essa sua inclinação para o equilíbrio das coisas quando entrei no seu quarto em Madrid – os chapéus alinhados, as camisas dobradas em pilhas com o mesmo tamanho, a colcha da cama bem entalada no colchão, o boneco de um gato, sentado, comprado nos chineses, a balançar uma pata como se fosse o ponteiro de um relógio. Julgo que a ordem doméstica de Holden tem a mesma função das bandas sonoras na berma da auto-estrada – para nos manter no caminho.

Conheci-o na capital espanhola, embora tivéssemos amigos em comum em Lisboa. Pouco tempo depois, participámos no mesmo jantar, na casa de um grupo de amigas islandesas. Holden atrasou-se, mas chegou sem o constragimento de entrar numa casa onde quase ninguém o conhecia, e onde todos já iam embalados nas bebidas e na troca de números de telefone. Holden não precisou de se esconder na melhor desculpa para o desconforto social – “Tenho de ir buscar uma bebida”. Num lugar com pessoas, Holden nunca está sozinho. Semanas depois, Holden ligou–me: havia a festa de aniversário de uma luso-britânica nessa noite. Encontrámo-
-nos para jantar e, já na entrada do prédio da festa, Holden descobriu uma cadeira abandonada, embora sem defeitos. Holden entrou na festa com a cadeira, rindo e cumprimentando os convidados, oferecendo o objecto à amiga anfitriã, que o abraçou e felicitou a sua chegada. Horas mais tarde, junto da mesa das bebidas, e tendo em conta que ele estava apenas há algumas semanas em Madrid, perguntei-lhe se conhecia a dona da festa há muito tempo, talvez de Portugal, sugeri. Ele disse: “Não, conheci-a ontem”.

Holden mudara-se para a capital espanhola para trabalhar com um milionário escandinavo. O seu emprego era tão imprevisível como o patrão. Uns dias,
Holden tratava de fazer negócios imobiliários com Singapura ou de pedir informação sobre propriedades no Panamá; noutros, o milionário pedia-lhe que levasse o carro a uma oficina em Sevilha ou criasse perfis nas redes sociais da internet, como o facebook ou o smallworld, a fim de conhecer possíveis namoradas para o patrão. Holden escreveu diversos textos detalhados, e embelezados, sobre o seu empregador; escolheu fotos falsas, de outros homens, e iniciou correspondência com mulheres brasileiras. Chegou a estar agendada uma viagem de quinze dias, ao Rio de Janeiro e São Paulo, para que Holden conhecesse estas mulheres, lhes falasse do chefe, e escolhesse potenciais candidatas ao cargo de primeira-dama do império imobiliário. 

Stanley Milgram, psicólogo criador de testes surpreendentes, organizou uma experiência nos anos 60, para saber mais sobre a forma como se constroem as redes sociais de amigos e conhecidos. Pediu a 160 habitantes do Nebraska que fizessem chegar uma carta a um consultor de bolsa, em Boston, sabendo apenas o seu nome – o remetente deveria pensar em alguém que pudesse conhecer este consultor de Boston e, a partir daí, construir uma corrente de pessoas até que a carta alcançasse o destino. Milgram concluiu que a carta chegava quase sempre depois de passar por seis pessoas. E que metade das 160 cartas foram entregues pelos mesmos três indivíduos. No seu livro, “The Tipping Point”, Malcolm Gladwell chama a estes indivíduos connecters, porque são aqueles que conhecem muita gente, e que alargam a extensão das ligações sociais. Holden
Sawyer é o homem a quem recorremos para entregar a carta. É um connecter.
É o amigo a quem perguntamos se sabe de uma casa, ou de um emprego, ou de convites para uma festa. Quando somos apresentados a alguém novo e, na previsível investigação mútua (“O que é que fazes? Onde estudaste? Onde é que vives?”) surge um nome comum a ambos os interlocutores, é bastante provável que esse nome seja o nome (verdadeiro) de Holden. Os connecters juntam diferentes grupos de amigos, apresentam pessoas que jamais se encontrariam, e não limitam os seus conhecimentos ao lugar de trabalho e à família, saem para fora da zona de conforto, vão à procura. 

Falei de Holden a um amigo, que não o conhece, e este comentou: “Ok, um relações públicas”. Não. Porque um relações públicas tem uma agenda e um fim, o seu poder de encantamento procura um
objectivo profissional. Holden move-se a felicidade, e as pessoas fazem-no feliz.
Holden é um humanista. No jantar de despedida de Madrid, juntou os amigos mais próximos, e interrompeu o discurso, mais que uma vez, porque chorava e ria aos mesmo tempo. Também tocava consecutivamente com a ponta do cigarro no cinzeiro. Nessa noite, numa discoteca, conheceu uma portuguesa, habitante de
Barcelona. No dia seguinte mandou-me uma mensagem: informava-me que a miúda da noite anterior estava hospedada em casa de uma grande amiga de infância, que, por acaso, também era minha amiga. Holden: o connecter. Um dos seus amigos disse-me: “Ele não consegue estar muito tempo longe de Portugal por causa dos melhores amigos, tem muitas saudades deles, sofre com isso”.

Outra possível designação para
Holden – O Monstro – tem apenas a ver com a sua avassaladora energia e capacidade de motivação, mas também com a improbabilidade das suas façanhas aos olhos dos amigos que, embora sejam testemunhas oculares, não conseguem agarrar o queixo diante dos acontecimentos: “Isto não está a acontecer”. Em diversas ocasiões ouvi este comentário sobre
Holden: “Este gajo vendeu a alma ao diabo”. Se Holden se senta numa mesa e diz, “Olha lá, nem sabes o que me aconteceu ontem”, sei que me esperam minutos de espanto.
Holden conhece pessoas enquanto se abriga da chuva na entrada de um prédio, a sair de um táxi, a comprar sardinhas na lota;
Holden fala com banqueiros de investimento, com meninas zen comedoras de ácidos, e com polícias de Madrid sobre os carteiristas nas carruagens de metro
(Holden preveniu um assalto por reconhecer o modo de operar dos ladrões). Por causa da sua boa disposição e interesse pelos outros, as pessoas desmancham a guarda, espevitam a atenção. Holden sabe narrar uma história como se fosse o dono de um cabaret que se senta na nossa mesa (lembro-me de ver um grupo de pessoas, que o conhecera nessa mesma noite, formando uma roda para ouvir um dos seus relatos). Porque não é alto, nem tem cara de modelo de lâminas de barbear, nem pensa que precisa de frases plagiadas de filmes para iniciar uma conversa, Holden não intimida os desconhecidos, e cedo começa a divertir quem conhece. Holden pode ser excêntrico, mas nunca assustador.

Numa mesma noite, em Lisboa, fez dois trios com mulheres – o primeiro na casa de banho de uma festa, o segundo num apartamento onde, de acordo com o relato, havia muitos brinquedos sexuais. Se as histórias mirabolantes lhe acontecem, e se já me habituei a ouvir, “Só a este gajo é que acontecem estas merdas”, é porque Holden as procura, e não falo apenas dos episódios de prodigiosa sedução e ginástica sexual. No Brasil, teve uma arma na cabeça porque um polícia pensou que um saco de plástico, no táxi em que Holden viajava, tinha cocaína – era apenas o resto de uma sobremesa. Se os seus dias estão cheios de qualidade dramática é porque ele, tal como um escritor, procura as personagens e os eventos, esbarra com eles sem estrondo, e quer mais. Porém, há uma diferença: o escritor usa preferencialmente a imaginação, Holden usa a vida real.  

O seu êxito humanista já serviu gente em apuros. Em São Paulo, um dos amigos de Holden, de visita, perdeu-se na discoteca e, ao regressar a casa, percebeu que não tinha nem dinheiro nem a morada de Holden. O porteiro da discoteca identificou a sua desorientação e, tendo-o visto na mesa de Holden, conseguiu descobrir o endereço e meteu-o num táxi. Holden: a carta do Monopólio que nos livra da prisão.

Já senti temor pela sua saúde. Receio que morra cedo, pela intensidade do seu metabolismo, embora reconheça que são preferíveis os 50 anos do Steve McQueen que os 80 do Papa Ratzinger. Penso sobre a forma como esfola corações (não costuma ficar tempo suficiente para os partir), sabendo que muitos desses corações só querem mesmo esfolanço. Um amigo disse-me, “Já pensei se ele será viciado em sexo”. Mais do que ter uma patologia, Holden gosta de pessoas, e acredita na possibilidade do amor romântico, trágico, inigualável. Já o vi apaixonado como se de uma doença se tratasse, algumas vezes com a brevidade de uma alergia matinal. Para alguns pode ser imaturidade, acredito que se trata também de esperança, uma esperança literária no amor – Holden é um romântico, crê na procura permanente da paixão que o deixará de pernas para o ar. Mas é aqui, nesta insatisfação, essa aparente debilidade, que está um dos seus maiores atributos como connector. Holden é um dos guardiães do romantismo, defensor do amor aventureiro, exagerado, épico, um amor que nunca chega a ter uma conta bancária partilhada, manhãs de domingo com os sogros, um serviço completo para servir chá, três carrinhos de bebé, e essa mão invisível que nos aconchega, nos oprime, e nos faz perguntar: “E se for apenas isto?” Todos, em algum momento, não digo para a vida inteira, mas pelo menos nas férias de verão, quisemos ser Holden. 

Quando deixou de achar graça aos estranhos trabalhos que lhe pedia o patrão, Holden demitiu-se e regressou a Portugal. Na despedida, o milionário escandinavo encontrou uma forma de elogiar a insolência e a prestação do seu assistente. Disse-lhe: “Don’t you ever forget – Life is all about fun.”

carrinhodechoque.blogspot.com

1 Response to “The Connecter & O Monstro”


  1. 1 IPL

    Hugo…? Entrevista @ Stock Exchange in London? 😉
    IPL / Astronauta2B

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