A conversar é que a gente se entende

Que tipo de conversas ocorrem durante a cópula? Quando sucedem, porque não é universal, de que e como se fala nesse momento concêntrico, pois se se estiver lá, o mundo congela. Maravilhosa Suspensão. Se a implicação é total, há um fechamento temporário para o exterior – condição da intimidade que não desculpa distúrbios, apesar da sua ocorrência poder resultar em risadas cúmplices e em mais-valias que viabilizam futuros próximos. Sendo adepto de fodas dramáticas, ou seja dialogantes, deter-me-ei, por agora, no que se diz e os impactos das palavras durante, deixando para outra ocasião a focagem no que se diz antes e depois de, daquilo… – Exacto!

“(…)

A – Sim… isso… isso… fode-me! Mas não te veeeenhas. 

B – Isso é que era bom. 

(…) (1)

A – Nada de batota! 

B – Não é fácil! Tenho que me abstrair.  

A – Pois tens. Pensa na morte da bezerra. Melhor, pensa em coisas más. Mas não páres! Com mais força! 

B – Não consigo. Adoro esta paisagem. 

A – Aahhhaahh… que bom! Eu ajudo-te. Pensa nas reguadas que levaste quando eras pequeno. 

B – Não levei… (ouvem-se risos estridentes). 

A – Pensa que a vida é curta.

B – Não digas isso, senão…

A – Não te atrevas. Pensa nas pessoas que não gostas.

B – Pára!

A – Agora… nem penses! 

B – Puta do caralho!

A – Já sabes que eu detesto que me chames isso.

B – Não era a ti, era à minha professora que me pôs de castigo por não afiar o lápis. Dizia que eu escrevia com um rabo de gato.

A – Ah bom! Não pares. É tão bom! Não me ouças! Não pares de pensar. Continua. Está quase. Pensa nas baratas do restaurante. Pensa no que tens que fazer amanhã. Pensa… 

B – Estou a pensar! É bom, não é?

A – Mais ou menos. Pensa. Vai resultar. Ahhhhaaahhh! 

B – Ooohhh! Siiiiimmm. Adoro.

A – Eu também. Agora pensa que estás de volta. 

B – Já? 

A – Se faz favoor…

B – Vem atrás de mim…

A – Estou a ir… ahhahhahhh!”

(As vozes diluíram-se contra a parede).

Esta foi a reprodução possível de um diálogo captado numa suite de um motel perto de Sintra com flutes de champanhe em riste e ainda com o travo a chocolate fino na língua da frugal degustação de bombons, oferecidos em jeito de boas vindas, ao som de uma música romântica fácil de adivinhar.

Sem querer despoletar mecanismos excessivos de identificação-projecção, reproduzo porque é fácil imaginar como foi impossível ter ficado imune a esta masterclass de orgasmo, centrada em técnicas discursivas que visam evitar a ejaculação precoce, retardando-a para atingir um orgasmo síncrono. Desse extracto, fica patente a importância de seguir uma disciplina para promover o bem comum. 

Antes de prosseguir, alguns preliminares. É sabido que escrever sobre sexo é muito diferente de o fazer. Apesar da escrita ser capaz de dar imenso prazer, sendo uma prática solitária – mas nem por isso diminutiva da qualidade e do nível de satisfação -, é incomparável ao prazer obtido nas infiltrações carnais possíveis e, às vezes, impossíveis dos corpos, cujo mínimo denominador comum é dois, podendo, conforme a vontade e o desejo contratualizados ou não, ser três ou mais. A propósito, Woody Allen disse que “o sexo é uma coisa muito bonita entre duas pessoas. Mas entre cinco, é fantástica.” Cada um(a) com o(a) seu(sua) cada qual. Ou seus quais.

É impossível escrever um texto sobre sexo sem falar do orgasmo, do pénis e da importância ou desimportância do seu tamanho, tendo em conta a sua funcionalidade, de vaginas – clitóris, pêlos púbicos e lábios incluídos, de ânus e nádegas, de bocas e gargantas, de mãos, braços e pés, de posições, de truques e malandrices ou safadezas – como se diz no Brasil -, de fantasias e fetiches, de taras e manias, de funções e efeitos anímicos. Mas também de pornografia, e, caso fosse neste texto, sobretudo na forma como dessacraliza a natureza providencial do sexo, ao dispensar a base sentimental ou a pulsão química, contornando a fecundidade das mulheres ou a pujança seminal dos homens. A isto chamo: a razão porno. Stop! Vamos ao que interessa. O jargão, as palavras e expressões: umas de ordem, outras estimulantes e provocatórias e outras declarantes de sentimentos em conversas antes, durante e depois de, daquilo, disso… – Era o que faltava!

Os conteúdos variam segundo os corpos em presença. Sem conseguir abarcar todas as modalidades, atrevo-me a catalogá-las, ilustrando com exemplos. Há quem se detenha a legendar os acontecimentos, descrevendo o que sente, em tom informativo: – É bom, não é? Gostas, não gostas? Há quem instale a selvajaria, complementando gestos e movimentos com sons reprodutivos: – Arrrrggghhh! – Rrrrrrraaauuu! – Cavalga, garanhão! Há quem opte pelo tratamento na 3ª pessoa, realizando a fantasia de se estar com alguém que se trata com deferimento. Esse registo remete para relações de poder, logo de subjugação ou de falso distanciamento, do tipo: chefe(a)-secretário(a), patrão(oa)-empregado(a): – Faça comigo o que nunca ninguém lhe deixou. Faça! Há quem aposte na redundância para aumentar o grau de excitação, não ficando satisfeito com a literalidade dos sons: – Ahhhhhhaahhh! É tão bom! Há quem prefira sentir em silêncio, sem precisar de ouvir ou estar calado para ser surpreendido, colocando, por vezes, o outro e a si no limiar de um embaraço: A – Fala comigo! B – Ups!! Assim de repente? Mais daqui a bocado… Há quem celebre o momento através do elogio ao outro: – Temos pau! Há quem espere ouvir dizer o que há a fazer: incitamentos à acção ou desejos de circunstância: Faz-me isto! Faz aquilo! Vira-te para aqui! Beija ali! Vou-te fazer isto! Pões-me louco(a)! – Morde-me no pescoço! Ou já em êxtase: – Parte-me todo(a)! Há quem reclame ou prometa a eternidade: – Quero que me fodas para sempre! – Não imaginas o que me acabaste de fazer. Há quem pulverize ladainhas de contra-adoração para estimular: – Chama–me puta que eu gosto! Há quem se arme ao pingarelho com frases: – Adoro a origem do teu mundo… Há quem não dispense um apontamento de carinho, como um certificado de garantia do valor nutritivo da foda: – Fazes-me bem. Há quem aproveite para demonstrar que é um ser sentimental: – Dá-me a mão. E beija-me a boca. Há quem, arriscando, profira palavras de ordem que, concretizadas, impossibilitam o direito de resposta: – Chupa! Tirada sujeita a sorte ou ao azar, pois há quem não se fique e morda ou se vire e diga: – sshhiuu! 

Parece ser evidente que na cópula sentimentalista, com precedência sedutora, estamos no domínio do subtexto. Feita a retrospectiva é esse o seu ponto de partida: insinuação, que procura encantar e testar a correspondência: – eu não acredito que te estou a contar isto? – Já alguma vez te aconteceu ires para a cama com um desconhecido sem trocar uma única palavra? Já no caso da cópula descomprometida, utilitarista e descartável, conforme os casos, predomina um discurso com toques hiper-realistas: – Bem! Onde é que andaste? Como é que sobreviveste sem mim? Proíbo-te de respirares! Livra-te de acordares a meu lado. Desaparece! Palavras e frases extraviadas que, na maior parte dos casos, têm equiparação com a vontade momentânea, mas nem sempre com os traços de personalidade na vida de todos os dias. Mas é aí que reside a graça, o indizível e a insondabilidade do acto sexual Dois exemplos seminais dessa especificidade: 1. Uma ilustração com a face de uma mulher a ser penetrada por caralhos no olho direito, na narina esquerda, na orelha direita e na boca, estando escritas as seguintes palavras no canto esquerdo da página: Try to Be More Accommodating (2). 2. Uma fotografia em que uma mulher está a olhar de frente vestida com uma t-shirt com as palavras Selfish in Bed (3) inscritas e ao fundo está um dos sete anões da Branca de Neve. 

Porém, caro(a) leitor(a) é sabido que, por vezes, o que o acontece durante não corresponde, nem cumpre os antecedentes. É por isso que, nessas situações, acordamos sem incomodar, sem tomar banho, sem lavar os dentes, sem vestígios que obriguem a reencontros para a sua devolução e nos escapamos. Sem comentários. 

 

sindicato.biz

(1) Dificuldades na captação devido a falha técnica, de origem desconhecida.

(2) Sue Williams, Try to Be More Accommodating, 1991, (Fabrice Bousteau, Ed.), Sexes: Images – Pensées et Pratiques Aartistiques Contemporaines, “Beaux arts Magazine”, Paris, 2004, p.130.

(3) Sarah Lucas, Selfish in Bed, 2000, Idem, p. 136.

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